PENSAR COMO TRADUTOR - POSTS DA DANI - 2

Esta é uma sequência de posts falando sobre dicas para tradutores iniciantes.

Foram postados primeiro no grupo "Tradutores, Intérpretes e Curiosos" no Facebook e depois no Linkedin. Agora estão disponívels no Behind The Curtains.

Photo by Toa Heftiba on Unsplash



O que são ferramentas de negócio?


Trago aqui 2 historinhas para introduzir a explicação desse conceito. Uma é ficção e a outra, infelizmente, aconteceu mesmo.


Elas servem pra mostrar como certas perguntas não fazem sentido serem feitas em um contexto de negócio, e que a gente tem 2 orelhas e uma boca por algum motivo, né? Bom, era o que dizia a minha avó, mas com a internet, a frase deveria ser atualizada pra “a gente tem 2 olhos e 10 dedos”.


Voltando à vaca fria, vamos às minhas historinhas.


Caso 1) Pãozinho fofinho e quentinho


Você entra numa padaria e pede pra conversar com o dono. Fala que está interessado em abrir uma padaria também, o dono te dá os parabéns (ele é um cara legal), boa sorte, etc e tal.


Aí você vira pra ele e pede, na cara dura mesmo, a receita do pãozinho, com todas as manhas e truques de como fazer a casquinha mais crocante.


Qual reação você imagina que ele terá?

  1. Ele leva um susto?

  2. Você vai conseguir ver a obturação do dente do siso dele, de tanto que o queixo dele cairá?

  3. Ele vai engasgar com a mosca que entrou na boca, de tão aberta que ficou?

  4. Todas as alternativas acima?


Caso 2) Diz aí quais botões tenho que apertar, mano!


Esse caso é real. Prestem atenção: é um caso de ferramenta intelectual, como as nossas em tradução.


Um amigo tem uma empresa de consultoria em Matemática e Estatística há décadas. No começo da década de 2000, o mercado estava excelente e várias empresas estavam chamando esse meu amigo pra análises de diversos tipos.


Uma pessoa de outra área, que nunca tinha trabalhado nem com Estatística, nem com Matemática (acho que ele era um técnico em TI ou algo similar), veio pedir pra esse meu amigo sintaxes de SAS, SPSS, R, Python e outros softwares. Meu amigo mostrou alguns links no GitHub com sintaxes legais e gratuitas que estavam lá.


A pessoa então perguntou pro meu amigo como ele conseguia clientes pra “fazer modelos estatísticos”, afinal de contas era só pegar as sintaxes e adaptar alguns parâmetros, certo? Meu amigo então passou para ele referências de livros para ele estudar: livros de Cálculo, livros de Probabilidade e Inferência, livros de Estatística Multivariada, livros de Planejamento de Experimentos, basicamente o conteúdo bibliográfico usado na graduação na USP, na Unicamp, na UFRJ, na UFCE, na ENCE/IBGE, assim por diante. Esse meu amigo, samaritano como é, se pôs à disposição da pessoa para tutorá-la ao longo dos estudos, que provavelmente levaria anos (como em um bacharelado normal).


A pessoa ficou uma arara. Uma fera. Pra que passar livros pra ele? Estudar pra quê? Era só dizer quais botões apertar no software. Não precisa estudar, se aprofundar em algo: é só ter “as manhas” de saber qual botão apertar e pronto, projetos de R$10.000 cairiam no colo dele.


Qual reação você imagina que meu amigo teve?

  1. Levou um susto?

  2. Caiu o queixo até o chão?

  3. Moveu a pastinha com os livros compartilhados e com um planejamento da tutoria pra essa pessoa (meu amigo, além de samaritano, é muito organizado) pra lixeira do Windows?

  4. Todas as alternativas acima (e ainda bloqueou a criatura do pântano).


Ferramentas de negócio não se restringem somente a porcas e parafusos (piadinha de tradutora de engenharia LOL). Ferramentas são todas as coisas, materiais e imateriais, que ajudam a desempenhar um serviço, a fornecer um bem, a agir como empresário. Isso inclui estudos na área e criações intelectuais: são ferramentas intangíveis, mas são ferramentas.


Uma CAT Tool é um exemplo beeeeeem chão de uma ferramenta de negócio.


E toda e qualquer criação intelectual sua, que você desenvolva e que, no final das contas, sirva para desempenhar o seu negócio, é uma ferramenta de negócio.

  • Minhas planilhas de controle de Jobs são minhas ferramentas de negócio.

  • Meus modelos de tradução para documentos (pense em RG, carteira de motorista, CPF, carteira da OAB, certidão de nascimento, entre vários outros) são ferramentas de negócio.

  • Minha assinatura de e-mail é uma ferramenta de negócio.

  • O website que eu desenvolvi pra meu negócio de tradução é uma ferramenta de negócio.

  • Meu cadastro de empresas que uso para o marketing do meu negócio de tradução é uma ferramenta de negócio.

  • Meus glossários pessoais são minhas ferramentas de negócio.

  • Meus modelos de orçamento para clientes finais são ferramentas de negócio.

  • Etc ad infinitum.


Olha, eu poderia listar trocentas e uma ferramentas de negócio aqui e ainda teria gente dando mais sugestões. E digo uma coisa: se a sugestão dada serve pra pessoa agilizar seu desempenho em produzir seu serviço (ou bem), É UMA FERRAMENTA DE NEGÓCIO.


Vou retomar o que falei no 1º post (este aqui):


Da mesma forma que jobs/projetos não caem do céu, as ferramentas de negócio também não são maná, não caem do céu.


Não estão na Natureza, prontas para serem colhidas por algum coletor-caçador.


As ferramentas de negócio são fruto da criação intelectual de pessoas que trabalham na área, e são usadas por esses profissionais para o desempenho de suas funções.


Então não insistam junto aos tradutores para “compartilharem” suas ferramentas de negócio. Elas não foram achadas assim, num pé de jabuticaba. Ou sei lá, no final do arco-íris, com um duende do lado.


Eles compartilharão se, quando e como quiserem. Eles não têm a obrigação moral de compartilhar e não são pessoas más por não fazerem isso. Caso compartilhem, é um ato voluntário e de boa vontade, fruto da decisão pessoal de cada profissional. E dado o que expliquei acima, agradeçam pessoalmente ao profissional pela ajuda e consideração.


E, sinceramente, minha experiência é que há vários de nós que compartilham, anonimamente ou não.


Para encerrar, o que penso, como tradutora, sobre o assunto:


Quando compartilhamos, estamos doando o nosso tempo gasto para desenvolver a ferramenta (o tempo em todas as etapas do processo), e não estamos recebendo nada em troca. Quando compartilhamos, estamos pensando no benefício de outros ao usar o fruto do nosso próprio trabalho. Tenham mais empatia com quem doa e reconheçam o esforço envolvido.

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