PENSAR COMO TRADUTOR - POSTS DA DANI - 6

Esta é uma sequência de posts falando sobre dicas para tradutores iniciantes.

Foram postados primeiro no grupo "Tradutores, Intérpretes e Curiosos" no Facebook e depois no Linkedin. Agora estão disponívels no Behind The Curtains.

Photo by Taras Abbat on Unsplash



Hoje meu post é sobre como fazer quando o ego e as nossas emoções atrapalham a nossa carreira (e a nossa vida) – dificuldades em receber críticas e em dar um passo pra trás.


Essa piada é muito interessante. Vale a pena ler e se colocar no lugar do passarinho.

Um passarinho, no meio do inverno (piada de lugar que neva), caiu do seu ninho direto no chão, no meio da neve. Piou horrores, chorando o destino que o tinha tirado de seu ninho quentinho e o jogado no meio da neve. Quando estava quase morrendo congelado, veio uma vaca e pimba, fez um enorme coco em cima dele.

"Pronto, não basta eu estar quase morrendo, ainda vem uma vaca e faz coco em cima de mim”!

Ele ficou muito bravo! Mas o coco era quentinho e, depois de um tempo, derreteu a neve! A asinhas começaram a se aquecer e ele ficou animado de novo! Aí ele começou a piar de alegria.

Ouvindo o pio, chegou um... gato. Com cuidado, limpou o coco do passarinho, deixou-o beeeeem limpinho. O passarinho piou mais alto ainda, quentinho e limpinho!

Terminada a limpeza, o gato comeu o passarinho.

Moral da história:

  1. Nem sempre quem te põe na merda é teu inimigo.

  2. Nem sempre quem te tira da merda é teu amigo.

  3. Quando você está na merda, não pie! (ou pelo menos pie mais baixo)

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A piada é simples e direta: ao receber uma crítica, pare e pense. Separe as palavras da crítica de seu conteúdo.

As palavras machucam? Claro! E por vários motivos.

  • Por estarmos frágeis quando a crítica foi feita.

  • Por sabermos que, no fundo, o conteúdo é verdade.

  • Por sabermos que, no fundo, o conteúdo não é verdade.

  • Pela crítica funcionar como um gatilho em relação a coisas que não queremos/sabemos/podemos lidar no momento.

  • Liste aqui o seu motivo – com certeza há muito mais.

Entenda uma coisa: não tem como evitar. As pessoas são assim, e temos que aprender a lidar com elas.

Pessoas abusivas existem? Sim.

Você vai viver numa caverna no alto de uma montanha? Não.

Estou falando pra você aceitar o abuso quieto e não reclamar? Claro que não.

Estou falando pra você (depois de xingar, chorar, socar o travesseiro, se entupir de chocolate, brigar com a pessoa, etc.) processar o que foi falado pra você? Claro que sim.

Esse é meu ponto.

Depois de se acalmar, tente se distanciar da crítica. Dê um passo para trás, tire a carga emocional das palavras e pense se o conteúdo faz sentido. Aí dê um passo para frente:

  • Se o conteúdo da crítica fizer sentido, pense em como você pode melhorar nesse ponto.

  • Se o conteúdo da crítica não fizer sentido, dê de ombros e continue a sua vida.

Nessa etapa de “dar um passo para trás”, busque a ajuda de pessoas de confiança. Peça a elas que também se distanciem da carga emocional e que sejam sinceras em relação ao conteúdo da crítica. Peça que elas sejam sinceras e deem sua opinião em relação à crítica e, se possível, que deem sugestões para que você melhore. Se essas pessoas realmente se importarem com você, elas vão ajudar em relação ao seu pedido. Vários colegas fazem isso de forma desapegada e com sincero interesse na pessoa que pede ajuda: queremos melhores colegas, colegas que busquem o aperfeiçoamento, colegas que caminhem conosco.

Queremos bons colegas e colegas bons. Competição não é carnificina, entenda de uma vez: competição é melhoria, é um passando na frente do outro ao dar o seu melhor, e servindo de exemplo para os nossos próximos passos. Percebe a diferença? O resto é darwinismo social: excrescência nojenta. Ponto final.

Já vou avisando: nem todos poderão lhe ajudar no momento que você precisa. Todos temos nossos problemas e vida pessoal e contingências e o escambau para lidar (o correr da vida embrulha tudo, tio Guimarães já dizia). Mas o pior que você vai obter, ao pedir uma opinião sincera de um colega, é um “agora não posso”. E ao não perguntar, você nunca saberá se poderia ter recebido uma crítica interessante. Certo?


Em relação ao 3º conselho da piada (Quando você está na merda, não pie). Este conselho se refere aos gatos: eles adoram quando você pia no meio da merda. Alguns gatos passam um bom tempo limpando você, parecem realmente se importar. Mas no final, te comem.


Obviamente a piada é extremista (é uma piada!). Mas é, principalmente, um “cautionary tale” (um conto com um fundo moral/educativo). Dar um passo para trás e se distanciar da situação é importante em todos os momentos das nossas vidas. E, mais ainda, aprender a identificar quem pode ajudar e quem pode prejudicar.


É isso.


PS: o poema lindo do Guimarães Rosa que citei no meio do texto, pra gente se deliciar um pouco.

O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem

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